
A vencedora do primeiro reality show do Brasil, a Elaine de "No Limite", e um psicólogo que viveu uma tragédia vão nos ajudar a entender a relação entre memória e imaginação. Esse é o assunto de hoje onde cientistas e pensadores do Brasil e do exterior fazem a gente pensar no nosso cotidiano de pontos de vista inesperados. Preparado para ver as coisas de um jeito diferente?
Um acidente aos 23 anos mudou não só posição de Paulo Cyrillo (psicólogo) em campo, no futebol, mas também na sua vida. ¿Imediatamente eu falei: nossa, perdi o braço¿, lembra Cyrillo.
Tem coisas que nossa mente projeta como uma tragédia, mas a vida ensina o contrário.
¿Isso não é problema. Problema é aquilo que a gente não pode resolver¿, diz Cyrillo.
Como driblar as armadilhas da nossa memória e nossa imaginação?
Qual a melhor lembrança que você tem da sua infância e qual é a melhor coisa que você pode imaginar no futuro para você e para sua família? Será que nossa imaginação não ajuda quando pensamos em ser feliz? Um professor de Havard acha que imaginação e memória são ferramentas importantes, sim, mas podem criar algumas armadilhas quando pensamos em felicidade.
¿Às vezes você lembra, num jantar de família, de coisas da sua infância. Só que seus pais se assustam e dizem que não foi nada disso que aconteceu¿, conta o psicólogo Daniel Gilbert. No seu último livro, "O que nos faz felizes - o futuro nem sempre é o que imaginamos", ele explica que é assim que a memória brinca conosco e esses enganos nos fazem ter uma previsão do futuro que não é real.
Como podemos imaginar coisas que nunca experimentamos? A ciência já sabe que esse processo parte do que temos armazenado na memória, os outros animais também são capazes de lembrar as coisas. Então, o que torna nós, humanos, diferentes?
Com a palavra, o chefe do departamento de neurologia da faculdade de Ciências Médicas da Uicamp, Fernando Cendes.
¿A partir da evolução humana, o lobo frontal, principalmente, e outras regiões do cérebro, fazem com que nós possamos organizar essa memória, trabalhar com essas informações de forma diferente¿, explica Fernando Cendes.
É essa parte do cérebro, o lobo frontal que só nós temos, que nos permite imaginar, pensar no futuro. E esse é só o ponto de partida de toda a confusão.
¿As estruturas cerebrais que estão envolvidas quando uma pessoa lembra de um fato passado, são muito parecidas ou são muito próximas das estruturas que são ativadas quando o indivíduo imagina o futuro¿, diz Fernando Cendes.
¿A imaginação é como um amigo não muito confiável, que comete erros, assim como a memória: lembramos de algo e nos enganamos; olhamos para o futuro e sentimos coisas irreais¿, diz Daniel Gilbert.
¿Sonho é sonho. E imaginação a gente tem o direito de imaginar o que a gente quiser. acredita uma mulher. Imaginação é tudo aqui que você sonha, que você quer e você corre atrás e persiste¿,
¿O seu plano de vida é diferente no dia em que você está contente, alegre, satisfeito com alguma coisa, daquele dia em que você está realmente desanimado porque aconteceu um fato ruim na sua vida, então você pensa o seu futuro diferente dependendo da sua situação, do seu humor naquele dia¿, analisa Fernando Cendes.
Essa confusão do que armazenamos e como elaboramos essas informações faz com que sejamos especialmente ruins para prever, por exemplo, nossa reação a uma tragédia
De acordo com diferentes opiniões de pessoas normais:
¿A pior coisa que pode acontecer na minha vida é eu ficar desempregado¿.
¿Eu sei que vai acontecer, mas é perder meus pais"
¿Fracassar numa coisa que a gente sonha a muito tempo¿
¿Eu pegar uma doença antes de minha filha completar 18 anos¿
¿Pior eu não posso nem imaginar que aconteça nada, que a gente a cada dia que passa toma um susto diferente né?¿, comenta mais um.
O que a gente imagina que será uma perda ou uma dor intransponível, quase sempre é possível reverter
¿Cada um tem a sua tragédia. A questão não é a tragédia, é como lidar com a tragédia. Se a pessoa ficar olhando pra tragédia, ela vai gastar o tempo, a energia, o foco, a atenção dela pra tragédia; e vai esquecer de olhar, de gastar seu tempo, sua energia, focar, para todas as soluções e qualidades de vida que ela possa ter¿, afirma Cyrillo.
Cyrillo, que você conheceu no começo da nossa história, perdeu seu braço direito num acidente incomum.
¿Quando eu me aproximei muito perto do avião, a hélice me sugou e eu voei uns 10 metros de distância. A hora que eu fui levantar do chão eu vi que eu não tinha como me apoiar. Eu tinha moído o braço¿, lembra ele.
¿Muitas pessoas acreditam que eventos futuros terão um impacto mais forte do que, na realidade, eles têm. A ciência nos diz, porém, que a maioria dos acontecimentos, bons ou ruins, tem um impacto pequeno na nossa felicidade total¿, explica Gilbert.
Cyrillo é a prova disso.
¿Eu me surpreendo com ele dirigindo, é uma coisa de louco, né. Por isso que eu digo que ele é meu herói porque tudo que ele faz eu nem sei como é que faz. Eu não tenho noção¿, conta a namorada de Cyrillo, Bia de Castro Oliveira.
¿Eu tive uma vida absolutamente normal. Namorei, casei, fui muito feliz no meu casamento, tive dois filhos maravilhosos, me dou super bem com eles. Eu acho que eu sou uma pessoa feliz e realizada¿, diz Cyrillo.
O que nos ajuda a driblar um acontecimento negativo é a maneira como as lembranças são distribuídas no nosso cérebro.
¿A nossa memória, ela é armazenada de uma maneira bem fragmentada e seletiva, não é como um videotape, que você grava tudo que aconteceu¿, explica Fernando Cendes.
¿O primeiro pensamento foi assim: não tenho o meu braço, o que sobrou de mim, é com isso que vou tocar minha vida¿, lembra Cyrillo.
¿Tendo fragmentos, você pode modificar essa lembrança, da sua vivência, de uma forma a se proteger, por exemplo, se você foi vítima de uma catástrofe, você pode esquecer seletivamente determinados aspectos daquele evento¿, afirma Fernando Cendes.
¿Eu tenho assim como filosofia de vida nunca olhar para o que eu não tenho e nem sofrer pelo que eu não tenho. Pelo contrário, para mim é sempre curtir o que eu tenho, usufruir aquilo que eu tenho¿, conta Cyrillo.
Nossa inabilidade em prever nossas reações também pode acontecer para as projeções positivas.
¿O que veio foi uma avalanche de mudanças, na realidade a gente não tinha noção do que iria acontecer, então as coisas foram mudando muito rápido¿, diz Elaine de Melo, campeã de ¿No Limite¿, de 2000.
Na primeira edição do programa "No Limite", Elaine passou por uma competição dura, onde sua resistência era testada ao extremo. Mas quem disse que sua lembrança é negativa?
¿Toda a dificuldade quando ela é vencida, você supera. Você vai superando. Então eu acho que passou¿, lembra ela.
É sempre o último registro que fica. Gilbert dá o exemplo de um torcedor: imagine que você vai ver um jogo. Fica sentado lá, um tempão, o jogo está monótono, mas no finalzinho seu time faz o gol e ganha. Você vai se lembrar desse jogo como sendo um dos melhores da sua vida, mas, na verdade, foi mais de uma hora de um jogo chato e só três minutos de excitação. A memória adora se lembrar dos momentos mais extraordinários e do final dos mesmos.
A promessa de uma pequena fortuna no final da competição sempre seduziu a imaginação do público. Mas a felicidade, para Elaine, era outra coisa.
¿Amigos, eu continuo com os mesmos que eu tinha. Felicidade? Eu acho que eu sempre tive¿, diz ela.
Elaine parece ter sido "blindada" com sua experiência e não é à toa.
¿A mente trabalha como um sistema imunológico psicológico. O sistema imunológico do corpo nos protege contra vírus e bactérias. O psicológico é nossa defesa contra pequenos contratempos do dia-a-dia como insultos, más notícias, adversidades. Esse sistema transforma nossa visão de mundo para melhor. O ser humano é muito bom em modificar o que pensamos sobre ele para que se sinta melhor¿, explica Gilbert.
Se não podemos confiar na nossa memória para construir o futuro, será que podemos nos preparar para não nos decepcionarmos com as expectativas da vida?
¿Existe um método fácil para isso, mas ninguém gosta de usá-lo. Tão simples, que você pode perguntar por que os cientistas levaram tanto tempo em estudá-lo. O método é: não use a sua imaginação, use a experiência real de outras pessoas¿, recomenda Gilbert.
¿Um amigo, um terapeuta, um sacerdote. Essas pessoas, sempre ocuparam um papel importante na sociedade porque elas são pessoas de referência para, justamente, trazer informações que são experiências diferentes para esse indivíduo¿, diz Fernando Cendes.
E Gilbert completa: ¿Qualquer coisa que você imaginar para seu futuro, com certeza alguém já vivenciou no passado. Por exemplo: qualquer um pode ver que os ricos não são tão contentes assim e concluir daí que a felicidade não vem com uma bolada de dinheiro¿.
¿Se não, todos os milionários seria felizes e não são, a maioria não. Eu sou mais feliz que eles¿, comenta uma mulher.
Por que nem todo mundo pensa como ela? Segundo Gilbert, por que nós acreditamos que somos pessoas únicas. Mas sempre podemos aprender com os outros. As lições estão aí, é só a gente querer escutar.
¿Saber que tem que levantar de manhã, tem que pegar um ônibus cheio, que no final do mês que vou ter que contar uns trocados pra pagar as contas é a realidade e eu tenho que viver sobre ela não é sonhar em ganhar na loteria e viajar pros Estados Unidos¿, diz a mulher.
¿Agora, viver, acho que é você ser mais simples. E acho que quando a gente simplifica a gente consegue facilitar as coisas¿, acredita Cyrillo.
¿Quando você se volta pras outras pessoas e troca essas experiências onde você pode reorganizar sua linha de pensamento¿, lembra Fernando Cendes.
¿As pessoas me perguntam: por que eu estudo a felicidade? Eu respondo: por que alguém estudaria a infelicidade? O que me interessa é a felicidade real, não aquela que vem quando, por exemplo, você come um doce. Essa também é legal, mas quero estudar a felicidade profunda, aquela que vem quando você vê sua neta pela primeira vez, ou quando ajuda alguém. Como o ser humano corre atrás dela: é isso que eu quero compreender¿, diz Gilbert
Fonte: Fantástico.
Beijos a todos e até a próxima!
Enviado por: Debbby - 6:08:52 PM
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